Venenos de Deus, Remédios do Diabo é o mais recente romance de Mia Couto, escritor moçambicano nascido em 1955. Neste livro, tomamos contacto com Sidónio Rosa, médico português que decide fazer trabalho cooperativo em Moçambique para tentar encontrar a sua amada Deolinda, uma mulata que conheceu num congresso em Lisboa. Chegado a Via Cacimba só encontra os pais de Deolinda – Bartolomeu Sozinho e Dona Munda – que justificam a ausência da mulata por suposto estágio. No decorrer da narrativa Sidónio é confrontando com histórias antagónicas sobre o que terá acontecido a Deolinda e sobre o passado da família Sozinho. Adensa-se o mistério e Sidónio mergulha, também ele, na cacimba que parece cobrir a Vila Cacimba.

Mia Couto sabe contar uma história, doseia a informação com mestria, revela os factos no momento certo, fá-lo quando já estamos desconfiados da sua existência e sem chamar a atenção para si. O leitor só sabe aquilo que a personagem principal sabe, embora haja algumas excepções, e toma conhecimento dos factos ao mesmo tempo que Sidónio. Isto permite que cada revelação seja, no contexto da narrativa, verosímil e permite também uma maior envolvência da parte do leitor.

Em Venenos de Deus, Remédios do Diabo é fácil gostarmos das personagens pelo carisma e pela quase total ausência de maldade. Não são heróis, são pessoas que, como todos nós, cometem erros, mentem, falam verdade, têm medos, fantasmas e acreditam em algo que não se vê e que não é terreno.

Nessa galeria de personagens destaca-se Bartolomeu Sozinho, um velho reformado que andou toda a vida, quando Moçambique era uma colónia portuguesa, embarcado no transatlântico Infante D. Henrique. Passa os dias fechado no seu quarto, apenas com a companhia da televisão que, como é dito, sonha por ele. Mal visto em Cacimba, por causa da sua ligação ao regime colonial que é empolada por uma daquelas lendas heróicas que alguns contam – neste caso o administrador Suacelência – para se vangloriar e conseguir um lugar de destaque junto da comunidade.

A sua esposa, Dona Munda, é uma mulata acusada pelo seu marido de ser feiticeira. Guarda segredos que nunca chegamos a conhecer na sua totalidade. Tão depressa deseja, aparentemente, matar o seu marido como deseja que ele não morra e que recupere do mal que o consome.

Com um papel de menor destaque desfilam na prosa de Mia Couto outras personagens com traços particulares e que prevalecem na nossa memória finda a leitura deste romance. Disso exemplo é Suacelência, o administrador da cidade que deseja um medicamento que acabe com o suor.

A própria Vila Cacimba assume um destaque simbólico, porque tudo nela – locais (cemitério) e personagens – parece, como o nome indica, estar envolto num nevoeiro que não deixa ver a realidade. Na vila, o tempo (passado, presente e futuro) parece não existir e as histórias têm tantas versões quantos os habitantes que as contam.

Venenos de Deus, Remédios do Diabo apresenta o trabalho sobre a linguagem típico de Mia Couto, onde as palavras são alteradas pela oralidade e pelo uso efectivo do dia-a-dia. Ainda assim, Mia Couto exagera nos adágios que coloca na boca das personagens e na voz do narrador. Parece haver uma necessidade de colocar em filosofia popular todo e qualquer acontecimento. Mesmo a personagem mais humilde tem a capacidade de soltar uma máxima em relação à coisa mais ínfima. Em alguns casos esse exagero de máximas é justificado e até recebido com um sorriso de aprovação, noutros parece um puro exercício de estilo feito a pensar em antologias de pensamentos de bolso. Cito alguns exemplos: “O amor acontece para a gente desacontecer” (página 38) e “Viver é um verbo sem passado” (página 46).

Com o desenrolar da acção, deixamos de reparar nesse pequeno pecado e passamos a devorar com ganância cada página, na esperança de ver atadas todas as pontas da história. É esse o grande mérito de Mia Couto: sabe contar uma história e isso é um bom motivo para pegar num livro.

Tendo já editado alguns romances do escritor turco, galardoado em 2006 com o Prémio Nobel de Literatura, Orhan Pamuk, a Editorial Presença publicou agora um livro de memórias do autor, centrado na sua cidade natal: Istambul. Traduzida por Filipe Guerra, a obra é profusamente ilustrada por gravuras e fotografias da cidade, assim como da família Pamuk, que a enriquecem inquestionavelmente e que aliviam o tom um pouco maçudo que alguns capítulos assumem.

Istambul – Memórias de uma Cidade não é um guia turístico, uma enciclopédia ou um volume histórico. Apesar de haver um pouco de tudo isso, a espaços, o livro é exactamente aquilo que diz ser – um livro de memórias – e nunca o leitor se esquece desse facto. Por esse motivo, este não será tanto um livro para quem goste de Istambul ou, mesmo não conhecendo, tenha curiosidade em relação à cidade, mas antes um livro para quem gosta de Orhan Pamuk ou tem a curiosidade suficiente para querer ler algo mais do que a sua ficção.

Não quer isto dizer que alguém que nunca tenha lido algo do autor não possa pegar neste livro pela sua temática. Pode, de facto, fazê-lo, sem que isso acarrete qualquer consequência para a compreensão da obra. Na verdade, existem capítulos longos dedicados a escritores turcos, a escritores ocidentais que visitaram Istambul, a pedaços da história da cidade, em que a presença da Orhan Pamuk enquanto pessoa (ou personagem) não se faz sentir. No entanto, a obra segue a cronologia da sua vida e acompanha as suas transformações enquanto pessoa, assim como as transformações que a cidade foi sofrendo. Aliás, os capítulos mais centrados no autor e na sua vida familiar são os mais interessantes e que se lêem com maior prazer. Isto pode dever-se também ao facto de os outros capítulos abundarem em nomes de zonas, ruas, bairros e pessoas de que o leitor comum ocidental, que nunca tenha visitado Istambul, nunca ouviu falar.

Pamuk aborda, como seria inevitável, alguns temas praticamente indissociáveis de quando se fala de Istambul ou da Turquia: a queda do Império Otomano (e as ruínas que vão desaparecendo lentamente ao longo dos anos), o desejo de ocidentalização, a melancolia inerente à cidade.

A infância do escritor ficou marcada pela imagem das ruínas desse Império que, a pouco e pouco, se iam destruindo. Particularmente marcantes, para o leitor, são as descrições das inúmeras construções em madeira que ficavam destruídas em incêndios frequentes, presenciados pelas multidões que acorriam ao local para ver o espectáculo. É deveras interessante a forma como os istambulenses lidam com este passado imperial, de grandeza e domínio. A sua ruína é encarada como parte da vida, sem qualquer dramatismo. Os edifícios antigos não são preservados, nem admirados, antes inseridos na paisagem até que, naturalmente, um incêndio ou qualquer outro acidente os destrua.

Esta forma de viver o passado está ligada aos dois outros temas anteriormente levantados. Por um lado, esta ideia de ruína está ligada à melancolia que se sente em Istambul, que não é bem melancolia, nem tristeza, nem nenhum outro termo que se possa traduzir: é o Hüzün. O Hüzün poderá ter a sua origem na queda do Império Otomano, mas introduziu-se de tal forma na cidade e nas pessoas que já não se pode conceber a ideia de Istambul sem esta espécie de melancolia. É este sentimento, também, que origina aquela relação estranha com o passado, que não é bem de indiferença, mas que também não é de afecto ou de repúdio. Por outro lado, o desejo de ocidentalização também potencia o desligamento em relação à herança imperial. Este desejo não vem apenas da população, mas também do poder, uma vez que foram tomadas inúmeras medidas por parte dos governantes que aboliram certas tradições, em prol da ocidentalização.

Um outro elemento indissociável da cidade de Istambul, e que tem uma presença fortíssima na vida Pamuk (e, por isso, neste livro), é o Bósforo – o estreito que separa as duas metades da cidade: a europeia e a asiática. Por ter vivido sempre perto do estreito, ou em casas com vista para este, o Bósforo exerceu um fascínio enorme na vida do escritor. São muitas as vezes que se refere a ele, quer seja recorrendo à sua memória, quer seja através de impressões escritas por escritores estrangeiros.

Depois, há os elementos mais puramente familiares como a relação dos seus pais entre eles, a sua relação com os pais, com o irmão mais velho, com os avós, tios, etc.; porque a família vivia, na sua infância, num prédio comum, em que todos os andares estavam ocupados por membros da família Pamuk.

Estes elementos familiares vão intercalando com os elementos mais dedicados à cidade, conferindo à obra uma maior diversidade mas, como dito anteriormente, sempre ligado à figura do seu autor. É verdade que não se lê como um romance, que em certos capítulos se torna um pouco maçudo e que, eventualmente, poderia ter sido encurtado. No entanto, é também inegável que se trata de um testemunho interessantíssimo, cheio de momentos de grande riqueza descritiva, de grande ternura e emoção.

Utopias quotidianas

Já afirmei que o pensamento utópico existe muito para lá do género literário ou artístico. Não é apenas influenciado e despoletado pelo mundo em que vive, mas faz inclusive parte do seu quotidiano nas mais diversas formas. Se olharmos para o dia-a-dia das nossas sociedades podemos encontrar múltiplos exemplos dessa presença, como por exemplo, na religião, na política, na moral ou na cultura popular. O nosso pensamento e as nossas causas continuam preenchidos de utopias. Não há aqui espaço para desenvolver este tópico complexo com profundidade e apenas me proponho a dar alguns exemplos, de forma algo superficial, com o único intuito de mostrar que o utopismo tem uma forte presença no nosso dia-a-dia. Nas quatro áreas que referi, apresento um ou dois exemplos actuais para cada uma e procuro explorar em seguida, de forma sucinta, duas dessas áreas (uma outra exploro na última parte do texto).
A religião fornece-nos inúmeros exemplos de ideais utópicos, mas aqueles que mais se destacam para nós ocidentais são, certamente, a ideia do Paraíso e do Inferno – neste caso um exemplo que poderemos chamar distópico, já que recai no campo do indesejado. Não porque estes locais representem sociedades perfeitas ou imperfeitas, mas porque representam um ideal de harmonia e de paz nas relações humanas ou, por outro lado, de violência e sofrimento eterno no caso do Inferno. Além disso, o paraíso é muito provavelmente a utopia que durante mais séculos contagiou uma franja imensa da humanidade. Junta-se-lhe também a particularidade de nos poder dizer qualquer coisa sobre a esperança humana na mudança, ao projectar para lá da própria vida e da terra a possibilidade de alcançar uma sociedade ideal. Na realidade, não deixa de ser curioso que a influência da cosmologia católica comece a esboroar-se com o aparecimento de certas formas de pensamento e, porque não, ao mesmo tempo que o desenvolvimento do pensamento utópico.
Na política os exemplos são, igualmente, inúmeros: temos, por exemplo, aquele ideal que predomina hoje em dia e que molda em grande medida a nossa moral e os nossos comportamentos – o capitalismo – e temos outro que sob múltiplas formas surgiu ao longo da história em sua oposição – o socialismo. Já na moral, limitemo-nos a apontar que existe uma miríade de questões que podemos congregar numa expressão corrente, a de Direitos Humanos – uma utopia em certo sentido diferente das outras. Na cultura popular, existe, por exemplo, o carnaval, embora a expressão utópica no seu imaginário tenha sido mais forte no passado. Posso começar precisamente pelo carnaval e pela cultura popular para passar em seguida à questão dos Direitos Humanos.
Uma boa referência para esta abordagem é o livro Rabelais and His World, do filósofo russo Mikhail Bakhtin, dedicado à obra do escritor renascentista francês, François Rabelais, e é nele que vou pegar. Neste, Bakhtin mostra-nos muito claramente como, no geral, os ritos e espectáculos organizados à maneira cómica, em especial o carnaval, assumiam no seu decorrer uma forma em tudo distinta das formas de culto e das cerimónias oficiais da igreja ou do estado feudal, propondo mesmo uma visão do mundo, do homem e das relações humanas totalmente diferente da oficial. Contrariamente às festas oficiais em que os rituais consagravam as desigualdades, no carnaval aboliam-se as relações hierárquicas reinando uma espécie de “contacto livre”, ou seja, uma igualdade no contacto entre as pessoas impossível noutras circunstâncias pela existência de diferenças de diversa ordem, nomeadamente sociais, etárias ou económicas. Bakhtin fala mesmo na criação de uma dualidade do mundo afirmando que tais eventos “pareciam ter construído, ao lado do mundo oficial, um segundo mundo e uma segunda vida aos quais os homens da Idade Média pertenciam em maior ou menor proporção, e nos quais eles viviam em ocasiões determinadas”. É por esta razão que não parece ser exagero incluir uma tradição popular, celebrada sazonalmente, num tópico com o nome de “utopias quotidianas”. Na realidade, estas festas ocorriam geralmente mais do que uma vez por ano e chegavam mesmo a durar meses.
A ideia de dualidade do mundo também nos permite lançar uma luz sobre algumas das perguntas que levantei anteriormente sobre a relação da utopia com a moral. O que vemos, neste caso, não é definitivamente uma destruição da moral mas antes uma redefinição dos seus princípios; uma nova proposta moral materializada através da reprodução da sociedade idealizada na prática carnavalesca.
A perspectiva defendida neste texto assemelha-se muito à que é defendida pelo filósofo russo no seu livro relativamente à época a que se refere, ao defender que sem levar em consideração esta vivência utópica, esta dualidade do mundo, “não se poderia compreender nem a consciência cultural da Idade Média nem a civilização renascentista”. Além disso, o carnaval tem uma proximidade significativa do pensamento utópico ao partilhar algumas das suas características, nomeadamente, e para usar mais uma vez as palavras de Bakhtin, a de “se situar nas fronteiras entre a arte e a vida”.

Saltemos agora para a presença utópica na nossa própria moral, mais concretamente para a ideia dos Direitos Humanos. Esta é uma questão que ganhou especial relevância com a descoberta do novo mundo, inquietada que foi a nossa concepção da unidade da espécie humana. É este um dos “problemas” que nos permite olhar os direitos humanos como uma forma de utopia nos nossos dias. Classificá-la dessa forma não implica que seja algo impossível de alcançar: apenas que deve continuar no nosso horizonte para que continuemos a caminhar na sua direcção. Há que reiterar que a utopia não é uma ilusão por não a termos concretizado; é antes aquilo que ainda não existe e que, embora nos tendamos a aproximar, há de nos continuar a fugir prolongando a nossa perseguição. O escritor sul-americano Eduardo Galeano afirmou uma vez que "a utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais o alcançarei. Então para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar". Esta frase contorna precisamente o fracasso causado por olharmos as utopias como impossíveis e como uma forma de pensamento ingénuo. Além disso, alerta-nos para outro factor importante que nos impede de sobrestimá-las, de as tomar dogmaticamente ou de as apresentar como verdades científicas: se as utopias servem para nos fazer caminhar, guiando-nos em direcção a um horizonte fugidio, uma das conclusões que devemos tirar é a de que não existem sociedades perfeitas, nem mesmo nas utopias.
Os direitos humanos são uma representação muito fiel da importância das utopias na formulação do nosso pensamento e da nossa conduta diária. Representam um ponto basilar da nossa consciência moral e política e é um dos temas mais discutidos, mais polémicos e na origem de mais lutas nos dias que correm. No entanto, apesar de terem ganho esta centralidade com o pensamento iluminista, a sua história é muito mais longa. É um exemplo perfeito desse horizonte fugidio, alcançado sob a forma de vitórias graduais que nos parecem fazer aproximar cada vez mais desse ideal desejado, por muito que o horizonte se estenda novamente e insista mais uma vez em fugir. Não será difícil acreditar que para um escravo negro no século XVII fosse bastante díficil conceber a possibilidade de algum dia a escravatura acabar (provavelmente esta era uma questão que nem colocava). Mesmo no Ocidente, há não muito mais do que um século atrás ainda era corrente em muitos meios a ideia de que jamais seria possível vir a atribuir o direito de voto às mulheres ou acabar com o uso de mão-de-obra escrava. Infelizmente, as vitórias alcançadas nestes casos são, muitas vezes, apenas parciais, como por exemplo no que toca à escravatura, que insiste em renovar-se e que permanece viva, principalmente no chamado terceiro mundo, muito à custa das necessidades dos chamados países desenvolvidos, embora também não esteja extinta do nosso. No entanto, o que interessa sublinhar é aquele que constitui um facto óbvio: mesmo que a situação actual não seja a ideal em termos de direitos humanos, uma sucessão de progressos notáveis ao longo da nossa história permite-nos hoje dar por garantidos alguns direitos inimagináveis há poucos séculos atrás ou mesmo décadas. E isso só foi possível porque tais possibilidades permaneceram no horizonte, atraindo-nos constantemente na sua direcção.


Utopia e ciências sociais

Reconhecer esta presença da utopia na nossa história ou na vida quotidiana leva-nos à reflexão da sua relação com o campo científico que se dedica ao estudo dessas áreas, ou seja, as ciências sociais. Este é um tópico sensível já que, como parece ser ponto assente, muitas das desgraças associadas às utopias devem-se à sua apresentação enquanto verdades científicas. Mas julgo que esta ligação a existir acontece essencialmente num sentido: o do estudo científico da influência e da presença do pensamento utópico na nossa história e na nossa sociedade, ou o estudo das suas possíveis origens, causas e efeitos; e não o inverso, ou seja, enquanto motivação para iniciar ou moldar um projecto científico de acordo com um ideal utópico descurando a realidade dos factos. Seja como for, nem as ciências sociais nem as utopias são um projecto reformista, nem as primeiras têm que ser meramente um olhar distanciado da realidade social (desprezando o seu possível impacto no meio estudado), ou as segundas um simples devaneio imaginativo. Ambas têm repercussões consideráveis no mundo em que existem, quanto mais não seja porque ambas reflectem precisamente sobre a condição e comportamento do homem integrado nas sociedades e culturas em que se desenvolve. Além disso, ambas têm uma boa dose de imaginação e de base empírica nas suas concepções. Parece-me, por tudo isto, que cientificamente a influência pode ser recíproca: a ciência social enquanto uma forma de abordar criticamente o pensamento utópico e a sua influência na vida quotidiana e na história do homem, desconstruindo os seus mitos e racionalizando as suas propostas; a utopia enquanto uma forma de imaginação que questiona igualmente algumas assunções básicas de muitos projectos científicos, ponderando a existência de novas possibilidades e lembrando-nos constantemente de quão pouco sabemos sobre o homem, tanto no plano biológico como no plano social, evitando, ao mesmo tempo, que o nosso olhar tenda a ficar debilitado por possíveis concepções totalitárias de pensamento.
De todas as ciências sociais, há uma que ao longo deste texto pareceu destacar-se particularmente: falo da antropologia social. A ligação mais óbvia a apontar é a da relação com outras sociedades distintas da nossa: enquanto a antropologia as estuda, a utopia concebe-as com recurso à imaginação. Nesta matéria, a influência dos estudos antropológicos no pensamento utópico é real, tendo despertado a imaginação de muita gente através dos resultados que produziu, originando até alguns mitos, não de forma premeditada mas através de interpretações erróneas ou usurpações dos dados apresentados. Reconhecendo esta influência na produção do discurso utópico, que tende a mitificar e a atribuir uma roupagem idílica a alguns dados antropológicos – por exemplo, na relação de algumas sociedades estudadas com a natureza ou na harmonia que se lhes associa –, a antropologia social tem também outro papel muito importante na sua conexão com este campo da criatividade humana. Por razões históricas, é uma capacidade que pode muito bem ser a mais importante para a afirmação do pensamento utópico de acordo com seu valor próprio: a capacidade de nos impedir de considerar os ideais utópicos como verdades científicas, desmistificando algumas das suas formulações sobre a nossa natureza e sobre o nosso comportamento. Mas neste caso é importante sublinhar que a antropologia, enquanto ciência essencialmente empírica que é, também tem a ganhar com o pensamento utópico se assumirmos que nem tudo o que é possível tem que ter uma existência empírica comprovada.
A relação da antropologia com os dois elementos que apontamos estar na origem do discurso utópico também é bastante significativa. Para além da ligação que ambas têm com a diferença, um problema que está na origem do estabelecimento destas duas formas de pensamento e que foi motivado, em grande medida, pela descoberta do novo mundo, a antropologia também não existe sem um certo descontentamento. Apesar de se associar a antropologia ao estudo de outras sociedades exteriores à nossa, a capacidade que a antropologia tem de nos fazer reflectir sobre a nossa própria sociedade levou a que Claude Lévi-Strauss afirmasse que ninguém a escolhe como profissão se não estiver minimamente descontente com o mundo em que vive e não tiver o desejo de encontrar possíveis alternativas. É uma ideia que me parece ser acertada, embora não deva ser tomada acriticamente, até porque eventualmente nem todos os antropólogos pensarão da mesma forma.
Por último, a antropologia tem uma característica que a distingue das outras ciências sociais, em especial da sociologia, da economia e da psicologia, ao providenciar uma perspectiva holista sobre as sociedades que aborda. Apesar de ser associada ao estudo do outro e a sociedades extrínsecas à nossa, tem também muito a dizer sobre aquela em que vivemos e é nesse sentido que pode ajudar-nos a compreender melhor a presença e o desenvolvimento do pensamento utópico. Enquanto as ciências sociais referidas abordam a sociedade de um modo fragmentado, isolando as relações sociais do contexto económico, político e ideológico, a antropologia integra-as num todo, lançando-lhes um olhar exterior que visa facilitar a sua compreensão e fugir ao etnocentrismo que implica partir do princípio que podemos questionar as motivações de indivíduos em planos culturais distintos do nosso. Também neste caso, o pensamento utópico parece partilhar com a antropologia, em alguns casos, a forma de integrar o indivíduo na sociedade, ao apresentá-lo regularmente como integrado, limitado e profundamente influenciado pelo contexto económico, social e político em que está inserido, e não como um elemento isolado desse meio.
Basicamente, tal como o pensamento utópico desafia as nossas próprias categorias, a nossa moral e influencia a nossa vivência quotidiana, e tal como influenciou muitos acontecimentos históricos, a antropologia representa um desafio semelhante, intensificado pela sua dimensão empírica no lugar do recurso à imaginação. Podemos assim considerar que enquanto o pensamento utópico constitui um género de possibilidades, a antropologia é uma ciência das possibilidades.
A ligação entre ciência e utopia não acarreta qualquer risco se partirmos do princípio de que nem a utopia se deve tentar afirmar como uma verdade científica, nem a ciência se deve assumir, sem mais nem menos, como o farol do progresso humano e das suas possibilidades. Tanto a imaginação como a razão parecem ter qualquer coisa a dizer.

Este texto não é sobre nenhum livro em particular. É sobre um conceito abstracto a que chamarei “pensamento utópico” e que abarca tanto as utopias como as distopias. Possibilidades é o título para uma proposta simples a que este texto serve de mote. O objectivo é navegar pela literatura utópica e distópica, atravessando quando necessário a fronteira do género literário ficcional para abarcar o campo reflexivo e científico que lhe é dedicado. Pareceu-me proveitoso iniciar esta espécie de ciclo, sem um fim determinado ou regularidade absoluta, através dum texto introdutório e crítico que abordasse algumas das características, utilidades e perigos do pensamento utópico, justificando em simultâneo a importância desta iniciativa à luz da sua relevância para o mundo contemporâneo. O objectivo parece ambicioso, mas não tem pretensões maiores do que aquelas que uma leitura descomprometida pode suscitar. Na realidade, este texto será aquele em que provavelmente irei mais longe sobre o assunto. Rendo-me ao respeito que impõe uma área com séculos de existência, com inúmeras afinidades e que gerou e continua a gerar inúmeras obras, não apenas de ficção mas também toneladas de estudos e ensaios académicos, além da sua profunda influência em muitos elementos da nossa moral e da própria história da humanidade.

Se não fosse possuidor desta dimensão, talvez o pensamento utópico não tivesse como continuar a assustar e a contagiar tanta gente como ainda acontece nos nossos dias, servindo de alimento a muitos sonhos e pesadelos e voltando a ressurgir de tempos em tempos com nova intensidade, ora como um sinal de esperança, ora como um grito de alerta. Possibilidades (título roubado ao livro do antropólogo David Graeber, publicado em 2007) é um título propositadamente neutro para nomear este percurso. Limita-se a tentar representar o discurso utópico, não de uma forma maniqueísta – o sonho de uma sociedade perfeita ou o pesadelo de uma sociedade castradora e monolítica – mas muito simplesmente enquanto uma fonte de alternativas e de possibilidades que não têm que ser, necessariamente, boas ou más.

Se olharmos para a história do pensamento utópico, vemos que o seu principal feito foi, e continua a ser, acima de tudo, o de impedir que os horizontes se fechassem, recordando-nos constantemente da dinâmica incontornável da história e da condição humana, feita de retrocessos e progressos, de sucessos e insucessos, feita de esperanças, vitórias e desilusões. Enquanto forma de pensamento que vai para lá da ficção e influenciou muito mais do que um género literário ao longo da nossa história, podemos, por isso, usá-lo num sentido mais amplo do que aquele que lhe é geralmente aplicado – o de desejado mas impossível no caso da utopia, ou de indesejado embora que mais concebível (talvez como consequência da ideia pessimista que construímos e que prevalece no senso-comum relavitamente à natureza do ser humano) no caso da distopia. São estas perspectivas que levam a que a distopia tenha um impacto aparentemente mais vivo e transversal no pensamento humano, pois é associada com mais facilidade a alguns acontecimentos trágicos reais, que ainda hoje perturbam o nosso imaginário, tal como o Nazismo ou o regime Comunista soviético, contrariamente à utopia que é vista como sendo construída no sentido inverso, isto é, não como tendo uma relação ou origem tão directa em acontecimentos reais mas antes na própria imaginação. Esta visão será desafiada no decorrer deste texto. Não com o objectivo de minimizar ou questionar o impacto devastador destes episódios da nossa história, nem o de questionar a ideia de que o pensamento distópico foi uma consequência mais ou menos directa do pensamento utópico. O único propósito é ir mais além quanto à abordagem dos dois conceitos, apresentando-os como fenómenos históricos e antropológicos, o que implica questionar mais a visão que temos da utopia do que a que temos da distopia. Para podermos fazer este exercício, temos que aceitar a sua profunda ligação com o real e, acima de tudo, que ambas constituem possibilidades (e não apenas a distopia), mantendo sempre a devida distância daquilo que originou as verdadeiras desgraças associadas ao pensamento utópico: o facto de terem sido tomadas como verdades científicas.


O despertar das utopias


Já com uma longa vida, a utopia é mais uma forma de pensamento do que o título de um livro ou o nome de um género literário, não fosse a sua existência provavelmente tão velha quanto a do pensamento humano. Quando não é usada como adjectivo para impossível ou irreal, é encarada como um exercício imaginativo para pensar o futuro. No entanto, colocá-las num tempo que aparentemente fica para lá do nosso alcance, parece falhar muitas vezes a noção de que as utopias e distopias nascem num dado lugar e num dado tempo em mentes que, por muito visionárias que possam ser, não se conseguem desprender do próprio mundo em que habitam. Este factor torna-as tão importantes para pensar o futuro como para pensar o presente, ou mesmo o passado, principalmente quando nos questionamos sobre o que as motiva, o que as provoca e o que as origina. Quanto desta forma de pensamento pode ser usado para pensar o tempo em que são construídas é uma incógnita muitas vezes desprezada por nos limitarmos a olhá-las como ficção, sonhos ou pesadelos.

Ao nascer dentro de uma cosmologia específica, a utopia deve ser, num certo grau, considerada uma extensão dos seus valores, seja como uma forma de redefinição dos mesmos, como a sua intensificação ou até corrupção. Há quem tenha defendido que os discursos utópicos são projectos de aniquilação da moral, uma ideia bastante generalista e contestável mas que tem pelo menos a vantagem de reconhecer a ligação das utopias com o mundo em que emergem. No entanto, o preço deste reconhecimento é uma forma de conservadorismo que parece assumir que toda a forma de pensamento que entre em ruptura com o mundo em que vive parece ser, à partida, condenável. Assumir que é legítimo questionar a moral vigente não é o mesmo que defender uma forma de relativismo moral. Antes pelo contrário, já que apenas podemos alcançar um modelo moral válido e racional se este puder ser exposto ao pensamento crítico e se for confrontado com dados empíricos ou considerações filosóficas. A utopia parece ser de facto, em grande medida, uma dessas importantes formas de questionar alguns dos elementos do nosso pensamento moral desde que permaneça um exercício de imaginar possibilidades. Contudo, devemos perguntar-nos de que forma o faz, já que esse questionamento pode ocorrer de muitas formas: questionando, por exemplo, se a vida que vivemos é coerente com a moral que afirmamos que nos guia ou que defendemos; questionando a moral entrando em ruptura com os seus princípios básicos; ou questionando-a ao intensificar ainda mais a presença desses princípios no seu imaginário utópico. Com base nisto, podemos esboçar algumas perguntas que podem ser feitas sobre o utopismo e que ficam, por agora, em aberto: será o ideal utópico uma inversão imaginária do presente ou antes uma proposta com um imaginário social essencialmente novo? Será que possui uma ética própria ou constitui apenas uma ética invertida daquela da sociedade em que vive? Será a ausência de moral, ao aniquilá-la, como alguns defenderam ser o seu propósito, ou será antes uma proposta moral nova e, como tal, uma reafirmação da importância da moral ao invés da sua simples destruição? Para responder a isto, é necessário olhar para a relação das utopias com o seu contexto e podemos começar por fazê-lo reflectindo sobre a sua origem e sobre alguns dos factores que geralmente parecem estar ligados ao seu surgimento.

Apesar de podermos situar, tanto no tempo como no espaço, a origem e o desenvolvimento do pensamento utópico enquanto um campo de pensamento autónomo (a partir da obra de Thomas More que a denominou), não é difícil justificar a afirmação de que esta é uma forma de pensamento com uma existência provavelmente tão longa quanto a do pensamento humano. Podemos remontar à antiguidade clássica e evocar a célebre obra de Platão, A República, que serviu de influência ao livro de More. Mas podemos também estabelecer que A República constitui apenas um dos primeiros registos escritos desse tipo imaginário, já que a idealização de mundos distantes, no espaço ou no tempo, pode ser encontrada até na cosmologia de qualquer pequena sociedade sem escrita, seja na sua religião ou na sua mitologia.

Mas há pelo menos dois factores que parecem contribuir especialmente para que o desejo ou o temor de um mundo diferente emerjam, e apontá-los parece-me ser necessário para reforçar a ideia de que o pensamento utópico é indissociável do pensamento humano: são eles o descontentamento e a diferença. O descontentamento porque não me parece que a necessidade de idealizar uma nova sociedade tenha tendência a surgir quando uma pessoa está minimamente satisfeita com o mundo em que vive. Em primeiro lugar, tal empreendimento intelectual questiona a moral dominante e questiona a inevitabilidade dos comportamentos e das instituições existentes (mesmo que só existam fora da sua própria sociedade). Em segundo lugar, imaginar a possibilidade de uma sociedade melhor ou a de uma sociedade pior, propicia um sentimento de segurança: no caso da sociedade melhor quando apresentada como um futuro inevitável e, assim, encarada como uma espécie de profecia ou um destino inequívoco em direcção ao qual caminhamos; no caso da sociedade pior e, como tal, temida e indesejada, porque reflectir sobre a sua possibilidade constitui um sinal de alerta capaz de reduzir a ameaça que representa.

Indissociável do descontentamento é o outro factor fulcral para o pensamento utópico: a diferença. A importância da diferença é particularmente óbvia se reflectirmos, por exemplo, sobre o que serve de estímulo ao pensamento utópico e em que condições este tem tendência a emergir. Muitas vezes o descontentamento não é suficiente e há até a possibilidade deste estar adormecido, sendo necessário que algum factor o desperte da sua letargia. O célebre antropólogo francês Claude Levi-Strauss afirmou, em Raça e História, que é com base nas diferenças que a humanidade progride e essa é a razão pela qual esta deve ser preservada. O homem ao olhar os seus semelhantes, separados no espaço ou no tempo, foi construindo e redefinindo os seus padrões culturais: nem sempre em oposição, mas muitas vezes em sintonia com o que encontrou, mesmo que para se distinguir de outros.

A Utopia de Thomas More constitui um exemplo particularmente significativo da importância da diferença como estímulo para a imaginação humana, ao surgir numa época muito específica, abalada por um dos acontecimentos mais importantes para o desenvolvimento do pensamento ocidental – a da descoberta do Novo Mundo –; uma fase em que as consciências viviam adormecidas pela cosmologia cristã que via inatacada a sua concepção do mundo, com o mundo católico no centro e o progresso humano a resumir-se à conquista e à evangelização de todos os povos que a rodeavam, estando assim o fim da história decretado há muito tempo por um objectivo tão incontornável. Foi a descoberta de um novo continente habitado, numa zona caracterizada no imaginário da época por figuras monstruosas e inapropriada para a existência de vida humana, que abalou seriamente a ideia de unidade da nossa espécie, em que todos seriam filhos de deus, e abalou igualmente o caminho a que a humanidade já parecia estar condenada há muito. Tornou-se necessário encontrar uma resposta para o que tinha sido encontrado, encaixar aquelas pessoas ou criaturas numa cosmologia que já tinha o seu inventário há muito encerrado e explicar os seus comportamentos e hábitos estranhos, distintos dos nossos e desafiadores da moral cristã. Com este verdadeiro terramoto nas mentalidades da época, a esperança recebe um novo alento e a ideia de que, afinal, o mundo estava longe de ser todo conhecido serve de estímulo à imaginação dos europeus. Sem ser necessário desenvolver muito mais, a Utopia e o impacto que teve na sociedade da sua época é disso um exemplo feroz. Apresentada através do relato de uma viagem a uma ilha perdida no Oceano Atlântico, muitos procuraram a sua localização real e alimentaram os seus sonhos com a possibilidade da existência de uma sociedade semelhante na Terra.

Este momento em que podemos considerar que o pensamento utópico emergiu e se definiu como um campo autónomo, foi precisamente o momento em que a diferença abalou a humanidade em maior escala. Em seguida, analisarei a relação aparentemente mais discreta do pensamento utópico com a sociedade em que existe, apontando alguns exemplos, e também a sua relação com as ciências sociais.


Ilustração de Lais Pereira

Nota: Este texto foi escrito de uma só vez, mas por uma questão de "arrumação" será publicado em três partes durante as próximas semanas.

Os três primeiros romances de Haruki Murakami formam uma trilogia a que se chama a Trilogia do Rato. As três obras são narradas pela mesma personagem, cujo nome nunca se conhece, que tem um amigo designado como o Rato – ao qual a trilogia vai buscar o nome. Os dois primeiros romances – Hear the wind sing (1979) e Pinball, 1973 (1980) – não se encontram em circulação fora do Japão, porque, segundo consta, Murakami considera-os menores e não quer que sejam publicados (existem traduções nos Estados Unidos, mas estão há muito esgotadas).

O seu terceiro romance, que conclui a Trilogia do Rato, já é pacificamente aceite pelo seu autor e está traduzido em inúmeras línguas, incluindo o português, na Casa das Letras, com o título Em busca do carneiro selvagem. Foi publicado no Japão em 1982.

Seis anos depois, em 1988, Murakami regressou a este narrador sem nome da Trilogia do Rato, com o romance Dança, Dança, Dança. Sendo certo que é uma sequela de Em busca do carneiro selvagem, não é, contudo, inserido na trilogia, uma vez que aqui não figura já a personagem do Rato.

Dança, Dança, Dança, título que Murakami foi buscar a uma música dos Beach Boys, é um romance sobre um homem perdido, desligado da realidade, sem laços que o unam a algo. A obra começa com a referência à morte do seu gato. Os gatos, assim como a música, são elementos obrigatórios nos livros de Haruki Murakami, utilizados pelas personagens, implicitamente, como forma de atenuar a solidão. Aqui, quando a primeira acção com que nos deparamos é a do narrador a enterrar o seu gato morto, sabemos que estamos na presença de alguém cuja solidão ficou mais despida, mais difícil de disfarçar. A personagem não tem amigos, não tem uma relação estável. As únicas coisas que tem são o seu apartamento, o seu pequeno Subaru em segunda mão e trabalho, muito trabalho, que lhe ocupa praticamente todo o tempo. E ainda bem que assim é, porque sem o trabalho não saberia o que fazer do tempo.

No entanto, há um sonho recorrente que atormenta esta personagem. Por causa do sonho, sente que alguém está a chorar por ele no Hotel Golfinho. E esse alguém só pode ser Kiki. O Hotel Golfinho e Kiki são elementos que estão presentes no romance Em busca do carneiro selvagem. E embora se possa ler este Dança, Dança, Dança sem ter lido o outro, a verdade é que ajuda a compreender.

A partir destes sonhos, e da certeza de que alguém precisa de si no Hotel Golfinho, o narrador decide meter-se no avião para a cidade de Sapporo, onde fica o hotel. Assim começa a viagem onde percebe que é um homem perdido que precisa de se encontrar. Umas vezes mais por acaso do que outras, acaba por se ligar, finalmente, a pessoas. Uma recepcionista do Hotel, uma jovem de treze anos (Yuki) com quem viaja de regresso a Tóquio e um antigo colega de escola, agora actor.

No Hotel Golfinho, completamente transformado em relação ao que o protagonista conhecera quando lá estivera com Kiki, encontra o Homem-Carneiro, que o guia para o encontro consigo mesmo. O conselho que este lhe dá é muito simples: ele só tem de dançar. Dançar o melhor que puder, dançar tão bem que deixe toda a gente espantada. E é isso todo o romance: o narrador protagonista a dançar o melhor que pode, isto é, a viver o melhor o que pode, deixando que as coisas à sua volta aconteçam.

Não sendo tão rico em elementos fantásticos como outras obras do autor, por exemplo Kafka à beira-mar (de que se falou aqui), é inegável o cunho de Murakami. Isso nota-se na presença de personagens bizarras como o Homem-Carneiro – um homem misterioso, coberto com uma pele velha de carneiro e uma máscara de carneiro no rosto –, o poeta que não tem um braço ou a sua companheira, a fotógrafa, mãe de Yuki, que se esquece que tem uma filha, de tão embrenhada que está no seu trabalho. As referências musicais, características do autor japonês (que trabalhou numa loja de discos enquanto adolescente e, mais tarde, teve um bar de jazz), são abundantes e vão desde os Beach Boys e dos Talking Heads, aos nomes do jazz como Chet Baker ou Gerry Mulligan. Mesmo a própria temática do romance é típica da prosa de Haruki Murakami: um homem perdido no “mundo moderno”, na sociedade japonesa cada vez mais capitalista.

De facto, Haruki Murakami é, em toda a abrangência do termo, um escritor contemporâneo. Debruça-se sobre o mundo actual – as sociedades consumistas, o capitalismo selvagem, as cidades caóticas, as pessoas perdidas, a incomunicabilidade – e faz disso a sua matéria-prima. E fá-lo bem. Os seus romances são, simultaneamente, densos e fáceis de ler. Fluem a um ritmo constante que, não sendo rápido, é de tal forma cativante que o difícil é parar de ler. E, sem que se aperceba disso antes, o leitor dá-se conta que está, realmente, a pensar sobre o que lê e não apenas a ler. Isto porque Murakami, ao invés de nos inundar em pensamentos e reflexões, dá-nos situações, atitudes e diálogos que caracterizam irrepreensivelmente as personagens e os seus caracteres.

Sendo um autor que vende muitíssimo, um verdadeiro best-seller, Murakami não deixa de ser um grande escritor. É aquilo a que se pode chamar um escritor pop. A sua escrita é descomplexada e despretensiosa. Os seus livros estão cheios de referências musicais e cinematográficas actuais; vai buscar títulos a bandas como os Beach Boys ou os Beatles; situa as narrativas no mundo contemporâneo e é dos problemas do mundo contemporâneo que fala. Tudo motivos para que o leitor actual se consiga, facilmente, rever naquilo que lê.

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